Capitais e grandes cidades ampliaram a vantagem de Lula
Comparado a 2022, Lula teve mais votos nas capitais e nas grandes cidades e menos nas cidades pequenas — onde, mesmo assim, continuou vencendo. O Nordeste ficou estável. O movimento começou em 2018 e não parou. Município a município, o que os números mostram.
Para onde cada município andou
Cada seta é um município. Seta para a esquerda e vermelha: Lula ganhou terreno; para a direita e azul: Flávio ganhou. Quanto maior a seta, maior a mudança; quanto mais grossa, mais eleitores.
Como ler: o mapa não mostra quem ganhou, mas para onde cada lugar andou. Repare em duas coisas: o interior do Nordeste e do Centro-Oeste está cheio de setas azuis (Flávio cresceu ali), e as setas vermelhas se concentram em manchas — as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Belém. É a geografia da virada: poucas manchas, mas com muita gente.
Um realinhamento de oito anos
Separando as cidades pelo tamanho, o padrão fica nítido. Nas capitais, o PT foi de 40% em 2018 a 50% em 2022 e a 53% agora. Nas cidades com menos de 10 mil eleitores, subiu em 2022 e voltou a cair.
Votação do PT no 2º turno, por tamanho da cidade
Muitos municípios, poucos eleitores
Lula perdeu terreno na maioria dos municípios — e mesmo assim ganhou. A explicação é aritmética: dos 5.571 municípios, 2.941 têm menos de 10 mil eleitores. São mais da metade dos municípios, mas juntos somam 15,7 milhões de eleitores, cerca de 10% do total. Um mapa pintado por território dá a esses lugares um peso visual enorme. Por isso olhar para eleitores, e não para área, muda a história.
Cada bolinha é um município
Como uma vantagem de 2,2 milhões virou 4,4 milhões
Em 2022, Lula venceu por 2,1 milhões de votos (2,2 milhões no tamanho do eleitorado de hoje). Agora, por 4,4 milhões. De onde vieram os 2,2 milhões a mais? O gráfico abaixo soma a contribuição de cada tipo de cidade: barras vermelhas aumentam a vantagem de Lula; azuis diminuem.
As capitais, sozinhas, responderam por 1,7 milhão. As cidades pequenas tiraram 1,2 milhão. A conta fecha porque o Brasil grande pesa mais que o Brasil pequeno.
As capitais, uma a uma
Das 27 capitais, 26 andaram para Lula desde 2022 — só Palmas ficou parada. As maiores mudanças foram no Norte (Rio Branco, Macapá, Manaus) e no Nordeste (Maceió, Recife). O Rio de Janeiro, a segunda maior cidade do país, trocou de lado.
Votação de Lula: 2022 ○ → 2026 ●
Mais gente votou onde a disputa estava aberta
A abstenção caiu de 21,1% para 19,2% entre os turnos. Quem são esses quase 3 milhões de eleitores a mais? O gráfico agrupa os municípios pelo resultado do 1º turno.
Aumento do comparecimento entre o 1º e o 2º turno
No 2º turno votaram 2,9 milhões de pessoas a mais que no 1º, e brancos e nulos caíram 1,8 milhão. O aumento foi maior nos municípios divididos — sinal de mobilização onde cada voto valia mais.
Prefeito ajuda? Um quase-sorteio responde
Comparar cidades com prefeito do PT e do PL engana: os do PT foram eleitos onde Lula já era forte. Um método comum em estudos de economia política (a “regressão descontínua”) é olhar só as disputas decididas por um fio em 2024. Ali, quem venceu é quase questão de sorte — e as cidades dos dois lados são parecidas em todo o resto.
Mudança no voto de Lula conforme quem venceu a prefeitura em 2024
Tamanho do “efeito prefeito” estimado
Para onde foram os votos de Caiado, Cury e Renan?
No 1º turno, mais de 9 milhões de pessoas (9,32 milhões) votaram em alguém que não era Lula nem Flávio. No 2º, essas pessoas tiveram de escolher — ou não escolher. Para onde foram é a pergunta que decide uma virada.
O problema: o voto é secreto. Ninguém sabe em quem você votou. Então como estimar?
Do 1º para o 2º turno: para onde foi cada voto
De cada 10 eleitores…
Pesquisas da véspera subestimaram Lula em 1,9 a 3,8 pontos
Das sete pesquisas nacionais registradas no TSE com campo na última semana, seis davam Flávio numericamente à frente e uma (Futura, 49,9 × 50,1) dava Lula numericamente à frente; em várias, a diferença estava dentro da margem de erro. Todas erraram para o mesmo lado, subestimando Lula em 1,9 a 3,8 pontos; seis delas erraram além da margem de erro declarada (2 pontos) — só a Futura ficou dentro. No 1º turno tinha sido o oposto — elas superestimaram Lula e não viram Flávio chegar na frente.
Lula nos votos válidos: pesquisa da véspera × urna
Erros que trocam de lado de um turno para o outro são difíceis de corrigir com um simples “ajuste”. Uma hipótese consistente com os nossos dados: a abstenção caiu como nunca (de 21,1% para 19,2%), e quem decidiu votar no 2º turno — gente que as pesquisas classificam como “pouco provável de votar” — pendeu para Lula. O recorte de eleitores prováveis do Datafolha errou ainda mais (Flávio 52 × 48).
Como fizemos
Fatias “entre os dois” = votos do candidato ÷ soma dos dois finalistas. Saldo ajustado = mudança na diferença de votos de Lula, reescalando a diferença antiga para o total de votos de 2026. Persistência: correlação ponderada entre as variações 2018→22 e 22→26. Prefeitos: regressão descontínua local (kernel triangular, janelas de 5 a 20 p.p., resíduos por UF, erros robustos) em 755 disputas esquerda (PT, PSB, PDT, PSOL, PCdoB, PV, Rede) × direita (PL, Novo, PP, Republicanos, União). Referências: Lee (2008); Klašnja & Titiunik (2017), The Incumbency Curse; Rodden (2019), Why Cities Lose; Goodman (1953); King (1997). Dados: TSE (resultados e Dados Abertos). Script:raiox.py.